14 de setembro de 2017

O estranho caso do intestino anti - monárquico

(...)
"AI ELISABETE EDUARDA ESPADINHA VINHEDO DE ALENCASTRE PERALTA HERÉDIA RODRIGUEZ QUE ME CAGO TODO!!!"




Capítulo II

Balbina não era simplesmente uma cozinheira, era também e sobretudo o braço direito da sua senhora, era sua confidente, afinal haviam crescido  juntas na propriedade  da família da senhora, onde já mãe de Balbina nascera e se criara, assim como  a sua avó, e o seu bisavô, e o trisavô, em virtude de o pai deste ter acompanhado a família que, a mando  de El Rei, se mudara para as Índias. Tetravô Aldemiro, nas funções de valet do senhor conde José Maria Augusto Sebastião de Castro e Monção Aveleda de Bragança abalara, abdicando de tudo e por lá andou cerca de 3 anos. Após o regresso, sua senhoria decretara, como reconhecimento da lealdade e exemplar prática da incumbência, que Aldemiro Sousa e seus descendentes fizessem do chalet Printemps a sua residência, pelo tempo que entendessem. Balbina trazia na alma o estandarte do orgulho Sousa,  gerações e gerações  bordadas  em empenho e dedicação àquela Casa, um extremoso símbolo da nobreza,  o que lhes garantira a confiança do  mesmo numero de  gerações por parte dos senhores - sabido era que nos diários de D. Maria da Assunção,  avó da sua senhora,  por variadíssimas vezes haviam sido referidos, com elevado louvor, ora sua tia avó Josefa, ora seu primo Olindo - respectivamente camareira e cocheiro da Casa - e outros seus familiares, assim como outros tantos foram mencionados em outros apontamentos ou até mesmo em conversas memoráveis, como aquela que o Marquês de Alecrim manteve  com sua senhoria elogiando-lhe  o primor de seu papillon, tendo posteriormente até tentado aliciar o primo Asdrúbal por intermédio de 1 moeda de ouro, no sentido de o demover de seus serviços ao senhor duque. (Correu inclusive o boato de ter sido essa a gota de água que levou ao corte de relações entre os senhores e os marqueses, uma vez que já existia o enorme desconforto da evidente inveja por parte da marquesa, que nunca tirava os olhos da peruca da senhora, quando em visita). Balbina conhecia a história da família como as palmas de suas calejadas mãos. Balbina testemunhara o cuidado em que crescera  Amélia Maria Julieta de Barbieri e Sá de Andrade e Costa de Castro e Monção Aveleda de Bragança, sabia perfeitamente a que honras  se deviam aqueles nomes, e os "de" e os "e", e  Balbina nunca gostara do despautério com que o nome de baptismo de Constança não era hoje pronunciado na sua totalidade, assim como antes não fora o de sua mãe quando em iguais circunstâncias, Balbina tomara-se hoje de transtornos, como outrora se havia tomado, exactamente pelas mesmas desconsiderações. Estivessem os senhores condes herdeiros vivos e aquele casamento não teria acontecido, como por ela este não aconteceria, não carecesse antes tanto a família de legado financeiro que provesse a manutenção do palacete a fim de o poderem abrir a visitas do público, e aquela união de há 25 anos não poderia sequer  ter sido imaginada. Jacinto Patrício Cláudio de Almodovar Moraes Serpa de Campos Toledo Alcantara, pai de Constança, era  um simples plebeu cuja família tivera sorte nas minas, mas ainda assim, Balbina achava que um mínimo de compostura seria de se esperar, mesmo de alguém cuja família comprara 4 apelidos. Entendia ser uma ofensa referir-se o seu futuro senhor à sua noiva, como simplesmente "Amélia Maria Julieta, futura senhora de Almodovar Moraes Serta de Campos Toledo Alcantara".   

De início tomara a escandalosa omissão como  fruto de receio de enganos, fora portanto com a maior das boas vontades que mandara fazer e bordar  3 conjuntos de  alvos lençóis em puro linho egípcio, destinados ao leito nupcial - todos eles enriquecidos por delicadas rendas cuidadosamente tecidas pelas mais solicitadas rendeiras da região - do lado dele, Jacinto Patrício Claúdio de Almodovar Moraes Serpa de Campos Toledo Alcantara e do lado dela Amélia Maria Julieta de Barbieri e Sá de Andrade e Costa de Castro e Monção Aveleda de Bragança Almodovar Moraes Serpa de Campos Toledo Alcantara, assim mesmo, com um bonito efeito tracejado em ponto pé de flor  por debaixo dos apelidos da família da sua senhora, em elegantes letras imitando a caligrafia de sua alteza o rei D. Carlos I ( monarca da especial estima do senhor conde, com quem até tinha uma fotografia), todos eles ornados pela bordadeira Ofélia, que por vias do custo da encomenda, teve, por fim, a oportunidade de visitar sua querida prima de Espanha. Nas fronhas, as iniciais da cabeça que nelas repousaria, entrelaçadas entre si, 9 dele, 17 dela, todas minuciosamente trabalhadas a ponto cheio. Eram lençóis de 4,75 metros de largura cada um, gastara todas as suas economias na empreitada, mas com muito agrado fizera do acto a sua singela demonstração de apreço e dedicação à sua senhora, tentado revelar assim, a ela, o quanto a prezava, e ao senhor, o que e quem ele deveria prezar. Esmagara-se-lhe o peito de revolta, contudo, quando, volvidos meses, verificara não só o senhor insistir na gravosa lacuna, como a evidenciara, dando  ordens para que os lençóis fizessem de tendas improvisadas - mesmo que muito a contragosto da sua querida senhora, esvaída em lágrimas e protestos - num dia de verão muito quente em que receberam os Damascenos Nogueira e Abrantes de Taveira para um brunch no jardim.  
Não. 
Aquilo não podia ficar assim. 
Aquela viagem do seu antepassado às Índias,  trouxera à sua família mais venturas para além da exponencial distinção avalizada pelo senhor conde, mais que os relatos sobre as exóticas fragrâncias dos chás ou as sumptuosas texturas e cores das suas sedas, sobre cheiros e horizontes, danças, rituais e costumes, mais que as histórias de longos cabelos negros, trouxera-lhes outros conhecimentos, que as mulheres da sua família trataram de manter secretos. O seu tetravô, entretanto casado com a tetra Augusta, por lá travara conhecimento com  Kabir, marido de Aiyra, ambos serviçais do Marajá Odara e com eles estreitara relações de profunda amizade. As senhoras fizeram-se como irmãs, e aquando do regresso a Portugal, Ayira, como prova de eterna afinidade e agradecimento pela receita de Bacalhau Cozido Com Todos, ofertou à tetra o seu segredo de familia, nem mais nem menos que O Livro Da Capa De Pele De Naja, segredando-lhe, enquanto em sua face depositava o derradeiro beijo de despedida "for women's eyes only", o tal, que foi passado de mulher para mulher conforme determinação,  o tal, que conta sobre temperos, condimentos, e de seus interessantes efeitos no organismo humano. 

Por alguma razão o senhor volta e meia se punha tão macilento. 
Por vias de paralelos absurdos, por alguma razão também o destemperado noivo da Constança, igual ao futuro sogro em estirpe, clamava agora por sua mãe.  Pois. 

Balbina recostou-se ao parapeito da sua janela, inspirou  o ar fresco do anoitecer, e, de olhar semicerrado, quis registar aquele glorioso momento, enquanto pela sua memória passaram todas as figuras por si e pelos seus, incondicionalmente servidas. Respirou fundo, com a saudade à solta, pensou em toda a sua família e sussurou, de si para com eles: 

- Hã..? Digam lá..  Quanto não daria agora aquele cabrão ali aos gritinhos pela mamã, pelo tal desdenhado rolo de papel higiénico com o monograma dos nossos senhores,  timbrado folha a folha,  hum..?






(Testemunho passado à Filipa)

2 comentários:

  1. Porra, pá, parvas.
    Não tenho tempo para ler isto tudo, mas lá terei que me governar.
    Vou conseguir fazer parte da blogobola alternativa? Siiiim?
    E achas que sou capaz de fazer parte de uma corrente e fazer uma coisa parecida com isto?

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    1. Mau..
      Já começam as reclamações, catano...?! Ó Filipa, olha ela!:p

      Isto é pra se ir lendo, pá, ou pra nem se ler de todo, basta agarrares numa vertente qualquer - como bem sabes - e desenvolveres como quiseres.

      Já estás na blogobola alternativa, agora marca aí um golaço, que a malta não é do Sporting..:))

      Acho que consegues fazer bastante melhor que isso.

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